Segunda-feira, Outubro 10, 2005

ganhei o bronze

Gentes,

Este é o conto premiado com o 3º prémio de um concurso da CMA e é meu!!! hihihihi

a mulher babada

Os minutos, a Nossa Senhora e o Antunes

Nem Cremélia, minha esposa, se desgasta tanto com o passar das horas. Já eu, mesmo com um certo glamour tremoço, vejo passar minutos por mim e olho-os bem enquanto o fazem. Demoram-se o bastante. Cremélia tem um elixir antiminutos passantes que a minha imperial não consegue acompanhar em escala de um proveito alcançado. É sem dúvida uma boa imperial esta que me ocupa por estes minutos de agora. Mas não é como o elixir porque ainda vejo este pequeno minuto minguar e perder segundos a cada segundo vagaroso que se arrasta.
O elixir de Cremélia é a fé. Em 1917 aquando do milagre de Fátima e dando-se o pasmo da bela aparição, salvou-se do atroz tédio pneumónico-tuberculoso nacional, as ignaras almas tugas rurais. Já a minha alma, não rural e pouco tuga, precisa assim mesmo de uma nossa senhora pendurada em galhos de azinheira soltando risadinhas colegiais ante o perigo de cair por terra. Como as bolotas. Nossa senhora nas alturas do espaldar do ginásio da c+s da Reboleira. Nossa senhora nas íngremes escarpas de uns pouco fiéis degraus que seguem os círculos da Divina Comédia rumo ao primeiro patamar da tasca na cave. Nossa senhora pairando sobre o Continente da Amadora como o assombro dos preços baixos e a elevação do espírito humano pelos descontos do cartão família. Nossa senhora iluminado a segunda circular com a sua bem aventurada figura celeste, cujo doce existir em tal ponto do inútil citadino, fez fundir toda a restante electricidade. Nossa senhora almejando, na bancada central, a chegada triunfal do Estrela da Amadora ao esplendor do fim de tabela da primeira liga. Nossa senhora arrepiando caminho por entre os transeuntes e utilizadores da CP em direcção à tabacaria da estação e assim que chegada alegrar-se arrebatando mediunicamente três raspadinhas e um marlboro lights.
E, no meio de tudo, não há nem um pouco de véu que desça sobre mim e a imperial ao balcão. Não aparece nenhum poupa minutos que me segure a vida neste banco alto com vista para as prateleiras. Nestes profundos e profícuos pensamentos passeava o sr. Antunes sem saber que do outro lado da rua, sua mulher, D. Cremélia contemplava do alto do seu quinto andar a camisa de flanela acabadinha de se soltar da corda no que pareceu um atrapalhado suicídio em voo. Naquele jogo de dança com o vento as mangas reviravam felizes, o colarinho tremia no prazer da queda e os botões agarravam-se ferozes ao tecido, tal a força da descida. Uma tristeza para D. Cremélia que, impotente, via descer a camisa predilecta do marido, certeira ao alcatrão da estrada principal. Nisto surge, não nossa senhora, como se esperava, mas um bruto camião de transporte de frutas. Não vinha depressa mas vinha bem, direitinho na sua mão, até que a flanela xadrez desliza sobre o pára-brisas vinda das alturas, como uma aparição.
O "oh" de D. Cremélia foi abafado pelo chiar dos travões, os gritos do merceeiro, o rodar dos pneus no asfalto. Rodopiando sobre si mesmo o camião não evitou o desmaio e após completar o pião tombou grosso e bruto em cima do passeio, para dentro do café, irrompendo pelos pensamentos do Sr. Antunes que ainda pasmava com a ideia da nossa senhora frenética a fazer rodar uma moeda de euro sobre a raspadinha. Com o susto de ver aquela enorme caixa branca a rasgar caminho entre mesas e cadeiras e clientes assustados até chegar bem junto do seu banco alto ao balcão, o Sr. Antunes acabou por partir o copo entre os dedos daquela mão assustada que era a sua. O queixo escorregava-lhe pela cara chegando até meio do peito e deixando atrás de si uma enorme cavidade bocal estarrecida. O silêncio ocupava agora todo o espaço e antes que o Sr. Antunes pudesse desviar o olhar daquele monstro tombado à sua frente, ouviu-se o ranger da porta de baixo. Aquela metade de placa branca deslizou para o chão com um estrondo e deixou fugir, aflita, uma pequena bolota castanha que rolou sem convicção até bater na ponta da bota esquerda do Sr. Antunes.

2 Comments:

Anonymous fungagá said...

já tinha lido anteriormente, mas é hoje que lhe dedico algumas palavras! do ponto de vista de uma garota da mina, sabeis retratar bem o que é viver neste suburbio! parabéns pá, bom conto! porém, sendo eu um reboleirense........enfim, coisas!

11:17 PM  
Blogger shade said...

xiii... a imperial foi-se?

8:25 PM  

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